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TRAJETÓRIAS IMUTÁVEIS: DETERMINISMO E POSITIVISMO EM "LUZIA HOMEM"

Posted by FLAVIO ALVES DA SILVA on 17:33
A obra Luzia-Homem de Domingos Olímpio traz em si a influência das correntes de pensamento Positivista e Determinista. Dentre as partes da obra em que ocorrem as manifestações dessas teorias, foi escolhida para o desenvolvimento desse trabalho a trajetória das personagens. Também entre elas ocorre uma delimitação da análise e com isso foram escolhidas três delas: Luzia, Alexandre e Teresinha, sendo a última o principal enfoque desse trabalho.
Começamos por Alexandre. Um jovem de origem rica, pele branca, escolarizado e, por conseguinte, situado na classe alta da sociedade em que vivia. Sua origem, sua cor e sua instrução lhe proporcionavam regalias como trabalhar no armazém e receber maior quantidade de ração. Sua atenção desmedida para com Luzia era um fator considerado errado pela maioria das outras pessoas devido a diferença entre suas origens raciais. Um homem de cor branca não poderia ter uma relação afetiva com uma mulher de cor diferente. Sendo dessa forma impossível de se tornar realidade o amor que aflora em seu coração. O determinismo mostra-se tão inviolável que não permite que o amor dele por Luzia seja concretizado na obra. Outra manifestação ocorre no caso do roubo do armazém. A posição que Alexandre ocupa naquela sociedade o deixa quase imune da acusação e gera uma insuspeita e consideração generalizada de inocência por parte das demais personagens. Um moço daquela estirpe jamais poderia cometer tal falha. E isto é comprovado, reforçado e perpetuado ao ser provada a sua idoneidade. Por último, a oportunidade de sair daquela terra inóspita lhe é oferecida de forma exclusiva, reafirmando, implicitamente, que sua categoria não poderia ser rebaixada, o que era representado por sua união à Luzia.
Esta, por sua vez, é uma mulher bela, valente no trabalho, gentil e cuidadosa, oriunda da raça negra e retirante do sertão. Representa a determinação da eterna luta pela sobrevivência. A cotidiana batalha pelo pão de cada dia exercida pelo retirante e que perpetua sua dependência e sua manutenção na plebe. A Ela não se dá o direito de sonhar e menos ainda de amar, principalmente um homem branco. O amor que surge em seu coração é sempre sufocado por ela ao pensar nas diferenças existentes entre ela e Alexandre. É uma personagem fadada a sucumbir na condição em vivia, sem qualquer possibilidade de ascensão. Seu lugar era aquele, o sertão, e seu destino o sofrimento. Não lhe era permitido sequer chegar até a praia ou ter felicidade com a saúde da mãe ou o amor de Alexandre. Sua submissão retrata a ação determinista e positivista sobre ela, pois não se devia nem mesmo questionar a razão da impossibilidade de seu amor, de sua felicidade e de uma mudança de vida. A única possibilidade era aceitar.
Por fim abordamos Teresinha. Esta tem em sua trajetória de vida a manifestação explícita do determinismo positivista. Sua infância, em companhia do pai, é totalmente determinada pelo contexto do meio em que vive. Na fazenda ela sai montada a cavalo e indo vaqueirar o gado em companhia do pai e dos outros vaqueiros. Uma convivência que influencia até mesmo seu modo de montar, escanchada feito homem. Depois, ao ir viver com seu primeiro marido sua vida passa a ser de uma retirante acompanhando-o na eterna busca de melhora. Nesta fase, Teresinha se acostuma ao modo de vida em que está e mesmo com algumas saudades da vida abastarda que tinha com sua família ela aceita o seu fado. Após a morte do esposo ela passa a ter uma vida de mendigagem até encontrar o segundo homem de sua vida. Esse período de vida com seu segundo companheiro ela é vítima de violência sexual, física e simbólica, mas mesmo vivendo sob essas condições não há vontade em abandona-lo e ela asujeita-se de tal forma que chega a ter saudades dessa vida no futuro.
Seqüencialmente Teresinha é carrega por outro homem que viria a ser seu terceiro companheiro. Este a coloca em um local afastado do mundo social reservando-a ao seu desfrute quando bem entendesse. Contudo, mais uma vez não há resistência, não é permitido rejeição para com seu carma. Quando o desejo por ela acaba seu companheiro a abandona ao acaso e o destino dela é de continuar sua vida como uma retirante, como um "farrapo de gente" em busca do pão da sobrevivência. Sua aceitação é mais uma vez presente e ela se acostuma a morar de qualquer maneira e viver sem expectativas de melhorias e de mudança de vida.
Portanto, ao visualizamos a vida dos personagens analisados em seus acontecimentos e em suas reações a estes vem à luz a atuação do determinismo e do positivismo. Os reflexos dessas teorias nas trajetórias das personagens de age de tal forma a conceberem suas rotas de forma imutável, sem qualquer possibilidade de alteração e/ou de rejeição de seu destino. É sempre mantida a sujeição dessas personagens às forças sociais e biológicas conduzindo-as a aceitarem e a agirem de acordo com as regras desses organismos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

OLÍMPIO, Domingos. Luzia-Homem.
COMTE, Augusto. Discurso sobre o espírito positivo. São Paulo: Ed. Escala, 2005. (Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal – 30).

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A LOUCURA EM "O RECADO DO MORRO" DE GUIMARÃES ROSA

                                                               "Muitas vezes,
                                                                até mesmo um louco
                                                                raciocina bem"
                                                                                                  Provérbio grego

A verdade não reside na sabedoria, nem acompanha a sabedoria. Antes trilha as veredas bifurcadas ao lado daquela que livra o homem das preocupações e com sua própria voz afirma "sou eu a única capaz de alegrar a deuses e homens". É a força motriz de todo engenho humano. Motivo e/ou meio pelo qual se realiza os acontecimentos. Sendo assim, na verdade, a guia da sabedoria, pois a esta, enquanto verdade é oriunda daquela. Este único bem supremo é a Loucura. Nela se juntam todas as coisas, desde o senso comum e o saber científico até o sagrado e o profano.
Em O Recado do Morro, a loucura é a grande força mística que opera para o desenvolvimento dos atos e é por meio dela que tramita e pulsa toda a ação e densidade dramática da narrativa.
A mensagem enviada a Pedro Osório, vulgo Pê-Boi, viaja dentro da lucidez ofuscante da loucura por meio das personagens consideradas pela sociedade como loucas e/ou sem um juízo bem formado. Primeiro Malaquias "o Gorgulho", depois Catraz o qualhacoco, desse é passada ao menino Joãozezim e em seguida ao Guégue, este a transmite para o Jubileu ou Santos-Óleos "o nominêdomine", que a divulga na igreja e acaba sendo acolhida pelo coletor e repassada ao Ludelim Pulgapé e dele a seu destinatário.
Cada uma dessas personagens possui atributos de loucos e são assim considerados. Eles apresentam em si várias das formas da loucura. Dois deles, Gorgulho e Qualhacoco, vivem isolados em locas nas montanhas, avessos a tudo e a todos se restringem a um contato extremamente necessário com outras pessoas. É a loucura do isolamento. Um outro era o Guégue "o bobo da fazenda [...] ah, um especialmente" (ROSA, p. 38-39). A loucura da demência. Já o Santos-Óleos pregava o fim do mundo e vivia em penitência ao modelo dos profetas do cristianismo. É a santa loucura da religião. Enquanto que o Coletor tinha sido alterado em seu juízo pelo sonho de riqueza. A poderosa loucura do dinheiro. E quanto ao menino Joãozezim não se pode dizer que não tinha juízo certo, mas as crianças é negado o direito de possui sabedoria por falta de idade e conseqüente experiência. Ser louco é ser criança. É não saber o que se faz ou que se diz. É a loucura da infância. Por ultimo Laudelim Pulgapé é um poeta, um cantador. Tem sobre si o estigma do sonhador, do homem que vive no mundo da lua. Na insanidade da poesia e da música. É a loucura dos poetas e escritores.
Esses estados de loucuras os deixam mais sensíveis e os elevam em espírito sendo somente assim possível entenderem, mesmo sem ter consciência disso, a mensagem a ser transmitida. A loucura mostra-se superior a tudo, inclusive ao místico, pois o acolhe em si e o transporta. Diametralmente oposta a isso está a sabedoria. Sua inferioridade enquanto consciência, aqui tido como sanidade mental, é evidenciada nos momentos de transição da mensagem, pois ela é repassada sempre na presença dos personagens não-loucos, inclusive Pê-Boi, e mesmo assim eles não a entendem. Enquanto não ocorre entendimento por esses um louco compreende. Devido a esse não entendimento a mensagem continua a viajar dentro do universo da insanidade mental dos seres humanos sempre se fazendo presente, sendo dita a todos e em especial a Pedro Osório até o momento em que este a compreende. Este momento epifanico acontece conforme James Joyce define a epifania. Como sendo esta "uma manifestação espiritual subida" (Apud Gotlib, 1999).

Traição... Caifás... Parecia coisa que tinha estado escutando a vida toda! Palpitava o errado. Traição? Ah, estava entendendo. Num pingo dum instante. (ROSA, p 74 – grifo nosso).

Faz-se importantíssimo ressaltar o momento em que isso acontece, pois tal fato ocorre quando Pê-Boi está sob efeito do álcool, portanto em uma situação de anormalidade da sanidade mental, uma situação de loucura.
Nesse conto, além da mensagem correr pela voz dos loucos, a força geradora, em sua essência desencadeadora de ação, de todo o engenhoso plano de emboscada não é outra senão a loucura. Pode-se afirmar que o ciúme e o ódio é que levaram os sete homens a almejarem a morte de Pê-Boi, pois este
Era ainda teimoso solteiro, e o maior bandoleiro namorador: as moças todas mais gostavam dele do que qualquer outro; por abuso disso, vivia tirando as namoradas, atravessava e tomava a que bem quissese, só divertimento de indecisão. Tal modo que muitos homens e rapazes lhe tinham ódio, queriam o fim dele [...] (ROSA, p. 14)
Contudo, esses sentimentos não eram por si sós, ou mesmo juntos, capazes de levar qualquer um, ou todos, de seus inimigos a tentarem a sorte em combate. "[...] se não se atreviam a pegá-lo era por sensatez de medo, por ele turana e primão em força, feito um touro ou uma montanha" (ROSA, p. 14). Sendo assim eles apenas tomam coragem de realizar o atentado sob forma de traição, porém a iniciativa da ação de combate não parte deles exatamente por se encontrarem em um estado considerado de sabedoria. O embate só tem início em um momento de loucura de Pedro Osório ao entender a mensagem

Soprou.  "Doidou, Pê? Que foi?" Traição, de morte, o dano dos cachorros!  "Pois toma, Crônico!"  e puxou no Ivo um bofetão, com muito açoite. (ROSA, p. 74-75).

A loucura perpassa toda a narrativa d'O recado do morro. Sua compreensão exige o entendimento da mensagem a ser transmitida e só dentro da condição de loucura ela pode ser entendida plenamente. Seus portadores possuem o dom supremo. A Loucura. A provedora dos sentimentos de felicidade e
                                                  Aqueles que tiveram o privilégio tão raro desses sentimentos
                                                  experimentam uma espécie de demência. Têm discursos 
                                                  incoerentes, estranhos para a humanidade. Pronunciam 
                                                 palavras sem sentidos e a expressam de seus semblante
                                                 muda a cada instante. (ERASMO DE ROTTERDAM, p. 106).

Com isso o conto tem como sua essência geradora e força motriz a loucura. Aqui, esta é mais que uma personagem. É o que conduz as personagens. É o fio condutor da construção de sentido da história narrada. Podemos então concordar com Erasmo de Rotterdam e afirmamos que a loucura domina o mundo e se faz presente em casos extraordinariamente comum como o narrado por Guimarães Rosa.



BIBLIOGRAFIA
ERASMO de rotterdam. Elogio da Loucura. São Paulo: Ed. Escala, 2005. (Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal – 3).
GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do conto. São Paulo: Ed. Ática, 1999. (Série Princípios).
ROSA, João Guimarães. No Urubuquaquá, no Pinhém. 7ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

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