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RESENHA DO LIVRO "EDUCAR EM TEMPOS INCERTOS" DE MARIANO F. ENQUITA

Posted by FLAVIO ALVES DA SILVA on 17:39 in , , ,
A presente obra realiza uma amostragem das mudanças ocorridas nas instituições escolares e na sociedade nos últimos tempos. Aponta suas conseqüências e considera nesse processo a tarefa e a identidade daqueles envolvidos pelo contexto educacional. O livro tem sua estrutura dividida em sete capítulos nos quais o autor, dentro de sua teoria, aborda as questões por ele consideradas necessárias de análise para a realização de sua amostragem em defesa de sua tese que, por sua vez, consiste na necessidade de refletir sobre algumas práticas consideradas certezas absolutas dentro da educação e dessa forma exergar-se a derrocada de tais conceitos e métodos de ensino-aprendizagem, pois se faz necessário associar-se a educação as necessidades mais atuais como a capacidade e o emprego desta e da escola em caminhar de forma conjunta e diametralmente paralelas com a sociedade.
No primeiro capitulo é abordada a questão das mudanças na instituição escolar. É traçado uma amostragem das mudanças suprageracional, da intergeracional e da intrageracional , além de uma discussão acerca da diversificação dos alunos e professores dentro de uma escola. Aqui é colocada a necessidade sentida pela sociedade da existência de instituições escolares a partir do momento em que a família deixa de exercer sozinha essa função. Segundo Enguita, é nesse momento que o magistério tem sua apoteose e o professor ocupou o lugar de figura central desse processo. Contudo a escola sentiu a necessidade e a obrigação de acolher em seu seio as diferentes classes e os mais distintos tipos de alunos e também de professores, com isso as mudanças que ocorriam dentro desse espaço limitado da escola a levaram para uma condição em que essa deveria realizar em si mesma adaptações e aprendizagens de forma constantes, inclusive o professor. Para essa transformação o autor não considerou apenas as mudanças tecnológicas ocorridas nas várias sociedades, mas também a relação entre essas e a educação.
O capítulo seguinte traz uma amostragem da influência exercida, de forma determinante, pelo trabalho no campo da sociedade do conhecimento. Dentro dessa unidade é demonstrado como a sociedade com a sua evolução industrial estabeleceu um tipo de ensino-aprendizagem desenvolvido com o objetivo único de alimentar a força de mão-de-obra da qual o mercado de trabalho tinha necessidade. O autor coloca aqui que o papel da escola na época (final do século XIX e início do século XX) era nada mais nada menos do que capacitar os alunos para o desenvolvimento das atividades trabalhistas. Para apresentar essa idéia é transcorrido um percurso de transformações sociais que vem desde a revolução industrial passando por transformações dentro mesmo desse processo industrial como o fordismo e taylorismo. Na abordagem da atualidade são realizados questionamentos acerca da educação no constante a que tipo de educação se faz necessária. Seu conceito de sustentabilidade e de importância da educação é firmado em cima da necessidade de qualificação entendida por ele como ampliação global dos conhecimentos, pois essa se faz obrigatória diante da competitividade que é um fato consumado no mercado de trabalho e, por sua vez traz consigo conseqüências como a flexibilidade e a adaptação para novas situações.
A terceira parte da obra traz um relato histórico acerca dos interesses e dos interessados no processo de ensino-aprendizagem. Nessa parte são tratadas as questão da formação do estado e da função da escola nessa construção. É também abordada a realização de uma educação intercultural dentro de uma sociedade multicultural e a formação humanística dentro de uma sociedade globalizada. Enguita apresenta de maneira contudente qual é o papel desenvolvido pela escola e a função da mesma e dos professores dentro desse processo de globalização, sendo eles a necessidade de trabalhar para os direitos individuais, para a solidariedade e para a formação e consolidação da democracia.
O quarto capítulo tem como foco de trabalho os encontros e desencontros da família-escola. O autor demonstra o rompimento com a tradição e a expansão da escolarização como um processo de imperialismo que torna a escola como centro do processo educacional. Esse acontecimento é propiciado devido ao fato de que a família vai aos poucos perdendo a função de custódia da criança em conformidade com a secularização da sociedade e para suprir essa função vem a escola com a tarefa de educar. Contudo o autor demonstra também que esse modelo de escola-família não perdurou por muito tempo e demonstra a derrocada dessa hierarquia.
Educação e justiça social é a questão abordada no quinto capítulo da obra, no qual o autor discorre acerca da desigualdade social e da igualdade territorial. Ressalta as políticas igualitárias e seus resultados desiguais. Nesse ponto da obra o autor discute a questão da inclusão e de suas conseqüências no sistema escolar ressaltando a difícil conciliação da igualdade com a diversidade. Para colocar em foco essa complexa realização das políticas educacionais ligadas a igualdade social são apresentadas questões particulares da Espanha, mas que podem perfeitamente serem comparadas com as existentes em nosso país.
É a escola o ponto trabalhado no sexto capítulo. Nesse debate é discutida a instituição escolar em sua organização assim como seu entorno. São trabalhadas questões como a crise da organização escolar ou a quebra do sistema racional, a organização escolar como sistema natural ou a dissolução em seus elementos, além da necessária primazia do sistema ou a abertura para o entorno. O ponto central do debate se encontra na articulação da escola com seu entorno, pois as transformações acontecidas em volta dela fizeram com que sua mudança fosse inexorável. Uma reação exigida pela necessidade de flexibilização e de abertura da escola diante das inovações, com isso a instituição agora denominada de escola-sistema não deve se alienar da sociedade, pois deve reconhecer dentro desta última a sua importância.
No último capitulo, o sétimo, são colocadas as transformações sofridas pela profissão desde sua natureza e composição social passando pela estratégia coletiva e a jurisdição da profissão até culminar nas mudanças no modelo de profissionalismo. Novamente o autor coloca dados particulares da Espanha como exemplo concreto de discussão. Dentro desse debate é tratada a mudança do perfil dos professores e o reflexo dessas transformações na escola e na sociedade. Para isso são consideradas questões como a docência, a jornada de trabalho com suas condições de desenvolvimento do mesmo, a relação professor-aluno em sua carência de estabelecimento de vínculos entre eles e da importância do professor como recurso essencial na escola, dentre outras. Neste capítulo é reforçada a necessidade de flexibilização e abertura da escola como elementos basilares à escola para a garantia e sustentabilidade de sua importância no seio da sociedade.
É lançado, no epílogo, um desafio a todos os envolvidos no processo educacional para que sigam Prometeu: que olhem para frente e que arrisquem. Segundo Enguita, mesmo que o preço a pagar seja elevado o galardão é mais gratificante desde que ajudassem a formar cidadãos plenos em cidadania e qualificação profissional.
A obra foi gerada por um catedrático da Universidade de Salamanca, um importante e reconhecido centro de discussão e de produções importantes acerca da educação. Ela aborda precisamente questões comuns as mais diversas sociedades e torna-se um instrumento importante na discussão e para o aperfeiçoamento do processo educacional e de seu sistema escolar. Dessa forma sua leitura se faz recomendável e de grande importância para todos aqueles de que em diversas formas, diretas ou indiretas, encontrem-se envolvidos e, consequentemente, preocupados com a temática trabalhada, tornando-se para eles uma fonte de estudo e reflexão em busca da construção de um melhor sistema educacional.

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CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS E DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA

Posted by FLAVIO ALVES DA SILVA on 13:32 in , ,
A arte de contar histórias é uma prática milenar que se teve seu ínicio desde os primórdios da humanidade por meio da tradição oral, sendo intensificadas na Grécia Antiga e no Império Árabe – por meio das famosas histórias presentes na obra “As mil e uma noites”, contadas por Sherazade. Essa arte amplia o universo literário, desperta o interesse pela leitura e estimula a imaginação através da construção de imagens interiores. Narrar uma historia será sempre um exercício de renovação da vida, um encontro com a possibilidade, com o imaginário e o desafio de, em todo tempo e em todas as circunstâncias de construir um final a maneira de cada leitor/ouvinte.
A contação de histórias age na formação da criança em várias áreas. Contribui no desenvolvimento intelectual, pois desperta o interesse pela leitura e estimula a imaginação por meio da construção de imagens interiores e dos universos da realidade e da ficção, dos cenários, personagens e ações que são narradas em cada história.
Outro ponto em que atua é no desenvolvimento comunicativo devido a sua provocação de oralidade que leva a criança a dialogar com seus colegas ouvintes e a (re)contar a história para seus amigos que não estavam presentes naquele momento. Com isso também é desenvolvida a interação sócio-cultural da criança ao proporcionar essa interação entre crianças e a criação de laços sociais e formação de gosto pela literatura e artes. A criança recebe influência até em seu desenvolvimento físico-motor, devido a manipulação do corpo e da voz de que faz uso ao ouvir e recontar as histórias.
As escolas devem promover a formação de seus professores das séries iniciais possibilitando o contato com conceitos e técnicas de formação para contadores de histórias para capacitá-los para a percepção e uso dos valores do texto, das múltiplas possibilidades de abordagem do texto literário, para vivenciarem o contar histórias associando à teoria e a prática a partir do acervo pessoal como a memória afetiva e as histórias da infância e assim promover a interação de suas interfaces com os demais textos, e posteriormente, divulgar a arte de contar histórias com seus diversos enfoques de leitura, (re)apresentação.e representação.
As histórias também desenvolvem uma função de construção de conhecimento social da realidade junto a formação de valores e conceitos, pois embora seja ficção, o texto literário tem o poder de revelar a realidade social e até desmascarar suas mentiras, de forma que “a ficção pode ser mais real que o que se quer real, e o real pode ser mais ficcional que o que se quer ficcional” (Roland Barthes). Em uma sociedade tecnicista como a sociedade atual, contar e ouvir histórias é uma possibilidade libertária de aprendizagem e uma atividade de suma importância na construção do conhecimento e do desenvolvimento ético e significativo da criança enquanto ser humano.

(TEXTO PUBLICADO NO PORTAL LITERAL: http://portalliteral.terra.com.br/artigos/contacao-de-historias-e-desenvolvimento-da-crianca)

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LITERATURA... PRA QUE MESMO?

Posted by FLAVIO ALVES DA SILVA on 13:27
A literatura é, sempre foi e será o grande veiculo comunicativo que possibilita uma maior propagação dos conhecimentos, das diversas maneiras de interação social e da cultura de um povo para seus contemporâneos e para a posteridade. A literatura é uma manifestação artística por excelência, pois difere das demais por sua matéria-prima que é, nada mais nada menos, a palavra, a linguagem. O uso do signo lingüístico como unidade de concepção, de construção e de expressão a torna mais abrangente do que as outras artes, possibilitando assim que ela traga em si todas elas e ao mesmo tempo se encontra presente em partículas de tamanho variáveis, mas sempre presentes em todas as outras formas de manifestações do homem. A Literatura é a arte da palavra.
A literatura em sua função cartática, por meio da qual o leitor vive a vida do personagem de maneira a sentir e sofrer suas dores assim como compartilha seus sonhos e alegrias possibilita que o leitor não precise entender de administração de empresas ou economia para saber que cronograma financeiro mal realizado de uma empresa não gera apenas a falência de uma identidade jurídica, mas proporciona a ruína de inúmeras pessoas físicas que possuem sonhos e desejos pelos quais lutam diariamente em seus campos de trabalho em uma árdua rotina de mais-valia e alienação.
Ela tem a competência de elevar nossa capacidade de questionar e interpretar a vida para a partir dos conhecimentos construídos formularmos um pensamento crítico e transformador. Essa forma de pensamento é uma riqueza inigualável, além de um poderoso instrumento de guerra contra o controle ideológico e a manipulação do homem. A literatura também pode assumir formas de crítica à realidade circundante e de denúncia social. Sendo com isso uma literatura engajada que atua na própria realidade como um fator de transformação. Seu uso passa a servir para uma causa político-ideológica.
Sua capacidade de influência e transmutação no ser humano é tão forte e ao mesmo tempo tão sutil que sua utilização a serviço de uma causa político ideológica assume uma dupla face iqualavelmente carcerária e libertadora. A primeira face vai desde sua destruição e seu apagamento como forma de domesticação do pensamento até a construção de um falso pressuposto de nada vale. É muito comum se ouvir que literatura serve apenas para os estudiosos dela mesma e para os eruditos da acadêmica e que para os ignorantes e analfabetos, a literatura não serve para nada. A história nos mostra que muitos dos grandes governantes ditadores e facistas eram também grandes conhecedores da literatura e conseqüentemente pessoas eruditas, contudo se as populações aos quais foram subjugadas fossem também conhecedoras da literatura e de seu poder transformador, no mínimo não teriam sido manipuladas e exploradas de forma tão cruel e duradoura como foram.
A segunda face tem a literatura como forma de expressão, de resistência e de luta para transformação de uma dada realidade, pois “nada nos protege melhor da estupidez do preconceito, do racismo, da xenofobia, do sectarismo religioso ou político e do nacionalismo excludente do que esta verdade que sempre surge na grande literatura: todos são essencialmente iguais. Nada nos ensina melhor do que os bons romances a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do legado humano e a estimá-las como manifestação da multifacetada criatividade humana” (Mário Vargas Llosa).
Assim a literatura age por meio de sua produção e difusão como fonte de conhecimento e sua leitura age como luz na escuridão e chaves nas algemas proporcionando a capacidade de ver a realidade sob diversos pontos de vista e propiciando a liberdade sobre as mentes, o corpo e até mesmo as almas. Além, é claro, de proporcionar o satisfatório prazer de viver e conhecer outros lugares, outros mundos sempre possíveis pela arte da palavra.

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL DO TOCANTINS - CADERNO OPINIÃO, SEÇÃO TENDÊNCIAS E IDÉIAS

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UMA ESPERANÇA: UMA REFLEXÃO

Posted by FLAVIO ALVES DA SILVA on 17:14
I JORNADA INTERDISCIPLINAR DE
LETRAS E MATEMÁTICA DA EAD/UNITINS: LINGUAGENS, COMUNICAÇÃO E
TECNOLOGIAS

SILVA, Flávio Alves da.
Acadêmico de LETRAS do CEULP/ULBRA. flavioalves77@yahoo.com.br

O conto Uma Esperança de Clarice Lispector, apresenta características convergentes
com a crônica. Parte de um fato corriqueiro, do cotidiano, da concreta, visível e inxergavel realidade existente diante de nossos olhos. É breve em seu tempo narrativo. Contudo, traz em si uma reflexão filosófica profunda. Apesar de sua aparente frivolidade, a narrativa expõe uma busca pelo fator motivante de vida: a esperança. É o concreto, o inseto, que surge diante dos olhos, mas o que se desperta é uma introspecção perpetua na vida humana. No conto de Clarice a presença do inseto esperança vem como um provocador. Causa a reflexão e proporciona a estória o tom poético. Assim ele é como um poeta, um sapo cururu que chora a vida ou ainda a Açanã que canta em busca do amor:
Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário é
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo cururu
Da beira do rio...
(Manoel Bandeira)

Tu ave da paixão
Que canta no taquaral
Sobre o ramo delira,
Suspira,
Como eu não tenho,
Não tenho um ombro pra descansar.
Um rosto,
Uma face para acariciar,
Uma boca para beijar.
Tu cantas para atrair um companheiro
Eu canto
Para sufocar o pranto
Que certamente não será o derradeiro.
(Cleube Alves)

Os textos de Manoel Bandeira e Cleube Alves são poemas, mas têm em si a abordagem da vida humana realizada pela metáfora do bicho, do animal irracional que carrega a voz, que desperta o pensamento reflexivo e insere poesia no consciente e na vida do animal racional, no homem, aquele denominado ser humano. Em Uma Esperança, a narração é construída em dois planos: O factual, concreto, do inseto na parede da casa. E o filosófico, do emocional, reflexivo e instrospectivo. É a esperança sentida pela narradora e seus filhos, é o sentimento que pousa na casa. Essa forma
de narração apresenta a luta pura e instintiva da natureza, com suas leis de sobrevivência. É a aranha que quer devorar a esperança. Apresenta também, a batalha humana contra a inefável perecividade da vida e da necessidade de agarrar-se a esperança como um ponto de apoio para percorrer o caminho, para suportar o peso do fado. A questão da esperança apresentada nesse conto realça também a cíclicidade da vida. A renovação da esperança. É a inocência e felicidade da criança em contraste com a dor e tristeza do adulto. É a personificação da esperança, da renovação da vida que se encontra presente na criança que é capaz de observar o caminhar devagar e hesitante da esperança e, além disso, compreender que ela só tem alma e pode voar. Em oposição a isso, temos o caos da vida adulta que cerra os olhos para as coisas simples da vida. É o vazio existencial que feri, faz sangrar e causa dor afugentando a esperança. As grandes coisas, as grandes conquistas da vida não existem essencialmente em sua magnitude. Elas são compostas pelas particularidades, pelas pequenas vitórias cotidianas. Portanto, costumamos nos manter sempre observantes as ocorrências, por mínimas que sejam, que acontecem ao nosso redor. A vida em sua complexidade e inconsistência adquiri mais conteúdo. Com isso, quando enxergamos o mínimo e virmos nele o máximo, se pode atribuir a si mais sentido de existência, mais vida. É, portanto, ver no sapo cururu, na esperança ou na açanã a beleza da vida, e a consciência de que mesmo que se falasse a língua dos anjos sem o amor nada seria. É tropeçar na pedra no meio do caminho e disso absorver uma lição para se construir a consciência de que é preciso saber viver. É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. É escrever um belo epitáfio para o último leito da vida.


RESUMO PUBLICADO NOS ANAIS DA I JORNADA INTERDISCIPLINAR DE
LETRAS E MATEMÁTICA DA EAD/UNITINS: LINGUAGENS, COMUNICAÇÃO E
TECNOLOGIAS
O conto Uma Esperança, de C. Lispector, parte de um fato corriqueiro, do cotidiano, da concreta, visível e enxergavel realidade existente diante de nossos olhos. É breve em seu tempo narrativo. Contudo, traz em si uma reflexão filosófica profunda. Com isso não é efêmero, mas se perpetua. Apesar de sua aparente frivolidade, a narrativa expõe uma busca pelo fator motivante de vida: a Esperança. É o concreto, o inseto, que surge diante dos olhos, mas o que se desperta é uma introspecção perpétua na vida humana. A narração é construída em dois planos: O factual, o concreto, do inseto na parede da casa. E o filosófico, do emocional, reflexivo e instrospectivo, é o sentimento que pousa na casa. Essa forma de narração apresenta a luta pura e instintiva da natureza, com suas leis de sobrevivência

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A METAMORFOSE PARÓDICA DOS CAVALEIROS: UM BREVE ESTUDO COMPARATIVO

Posted by FLAVIO ALVES DA SILVA on 17:08
TRABALHO PREMIADO COMO 2º LUGAR NA JORNADA CIENTÍFICA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO LUTERANO DE PALMAS - CEULP/ULBRA - ANO DE 2006.

Flávio Alves da Silva1, Maria de Fátima Rocha Medina2
1Graduando, Letras, CEULP/ULBRA.
2Doutora em Filologia Hispânica, profissional, Letras, CEULP/ULBRA.

RESUMO:
Os cavaleiros das novelas de cavalaria, da Idade Média, sofreram metamorfoses tanto físicas e mentais quanto em suas funções ideológicas ao longo do tempo. O presente trabalho apresenta um estudo comparativo entre cavaleiros de épocas distintas em que se analisa a constituição do modelo, sua recriação e permanência na literatura, pela paródia, como elemento recriador. Tem-se como corpus deste trabalho A demanda do Santo Graal, Dom Quixote de La Mancha e O Cavaleiro Inexistente. O plurilingüismo de BAKHTIN fundamenta-o teoricamente. A análise dos cavaleiros Galaaz, Dom Quixote e Agilulfo evidencia as transformações decorrentes do poder plurilíngüe e fecundo da paródia na literatura.
PALAVRAS-CHAVE:
Cavaleiros, metamorfoses, paródia.
INTRODUÇÃO:
As novelas de cavalaria surgem por volta do século XIII e atingem seu apogeu que dura até parte do século XIV. Em A Demanda do Santo Graal surge um modelo de herói que se contrapõe ao herói clássico grego. Os cavaleiros são dotados de características especiais como destreza com as armas, lealdade e honra. Além disso, suas ações se direcionam a servir ao rei e à Igreja. Eles lutam para perpetuar a fé cristã católica em nome de Deus. Porém o cavaleiro medieval sofre transmutações ao longo do tempo, tanto em características físicas e mentais, quanto em suas funções ideológicas. Por exemplo, no século XVII, ele ressurge em Dom Quixote de la Mancha, como um cavaleiro intrépido e cômico que denuncia, pelo riso paródico, as injustiças e desigualdades de seu tempo, além de valorizar o homem como ser condutor de seu destino. Já no século XX, aparece o cavaleiro da razão e do caos em O Cavaleiro Inexistente, um ser de raciocínio esplêndido e de ações perfeitas. Sem mácula em sua armadura, mas sem corpo dentro dela. Ele nega as certezas absolutas do mundo, além de parodiar os discursos ideológicos e evidenciar a inexistência de um ser humano perfeito. A cavalaria vem sofrendo transformações ao longo de sua existência. Trata-se de um modelo cíclico, dialético, metamórfico. É sonho e realidade em um dialogismo concomitante que permite criar e recriar o cavaleiro sob influência da realidade exterior em seus novos tempos, procurando adequar-se às novas necessidades, aos anseios, ao desenvolvimento e, por conseguinte, à constituição do novo ser humano em cada época. Ao analisá-los comparativamente, verifica-se as vozes exteriores que se manifestam a cada nascimento e/ou a cada recriação de um cavaleiro.
MATERIAIS E MÉTODOS:
O objetivo deste trabalho é analisar as transformações ocorridas a partir do
cavaleiro medieval e sua permanência na literatura por meio de recriações paródicas. O método utilizado, para tanto, foi a análise comparativa dos cavaleiros Galaaz, Dom Quixote e Agilulfo criados e/ou recriados em momentos distintos nas obras de Heitor Megali (manuscrito do século XIII), Miguel de Cervantes (1952) e Ítalo Calvino (2000), respectivamente. Teve como fundamentação a teoria do plurilingüismo, de Bakhtin (1998), em que a paródia é um elemento fecundador.
RESULTADOS E DISCUSSÕES:
Por volta dos séculos XII, XIII e parte do século XIV as novelas de cavalaria atingem seu apogeu. Desse tipo de narrativa surge um modelo de cavaleiro destemido, íntegro, leal, forte, hábil lutador e defensor da honra das donzelas. É o modelo contido n’A Demanda do Santo Graal (manuscrito do século XIII). O homem, para ser instituído como cavaleiro, tem que possuir características e habilidades específicas como aptidão física, destreza com as armas, lealdade, honra e obediência ao rei e à Igreja. Assim é Galaaz, um ser humano além dos outros homens, capaz de lançar-se em batalhas na demanda pelo Santo Graal, de corpo e alma. É servo fiel e propagador da fé cristã e converte os pagãos como Palamades. Ele tem suas ações direcionadas por princípios e normas morais e religiosas. Sua conduta e seus feitos em vida são recompensados, enquanto vivo, com honrarias; e, em morte, com o galardão celestial. Esse cavaleiro luta geralmente sozinho, mas sempre representa a Távola Redonda e a Igreja. Exemplifica o homem como ser guiado pela fé e pela moral, cujo destino não lhe pertence. É vassalo do rei e da igreja e é essa posição que lhe dignifica perante os outros homens e a Deus. Com isso, as vozes conservadoras do mundo exterior
permeiam as ações e condutas dos cavaleiros que somente assim podem existir
como tal. Já no século XVII, surge um novo modelo, o cavaleiro intrépido, fraco,
cômico, defensor das viúvas, um reflexo às avessas do cavaleiro de outrora. É um
modelo que se origina no romance Dom Quixote de La Mancha (Miguel de Cevantes, 1605). Dom Quixote é um cavaleiro de armadura de latas, elmo de bacia de barbeiro, que se lança pelo mundo em busca de aventuras, luta pela justiça e leva a fama de suas façanhas aos ouvidos de sua amada Dulcinéia del Toboso para ser digno de sua graça. Porém sua posição como cavaleiro não surte efeito sobre ninguém e não existe qualquer respeito à sua figura. O cavaleiro e seu fiel escudeiro não recebem as honrarias que outrora eram destinadas aos seus companheiros de classe e, às vezes, nem mesmo a gratidão daqueles que ele ajuda, como no caso dos condenados a Gáles. A figura do escudeiro reflete esse avesso, pois Sancho Pança é quem possui o pensamento lógico, é que reside na realidade e cuida não somente das armas de seu amo, como também zela pelo próprio Dom Quixote como cavaleiro e amigo, enquanto este vive no mundo dos sonhos, de forma louca. Quixote busca o ideal de vida, os valores que fundamentam e dão razão para a existência do ser. Sua coragem e fé em si mesmo
são inabaláveis. Ele não teme lançar-se às batalhas, ainda que saia delas sempre
derrotado. Denuncia, pelo riso, as injustiças e provoca reflexões até a atualidade.
Reflete-se em Dom Quixote e suas aventuras a realidade histórica de sua época, a
ruptura com os paradigmas que constituíam o ser humano até então. Vê-se nele a
liberdade de pensamentos e de sonhos. Homem senhor de seu destino que busca transformar a realidade de acordo com seus anseios e desejos. Na linhagem do
personagem cervantino, em pleno século XX, quando não se pensa mais nos
cavaleiros, eis que ciclicamente, das ruínas circulares da novela de cavalaria, surge
o avesso do avesso, um cavaleiro impecável, perfeito e límpido. É um modelo que
desmascara e desmonta seus antepassados e que se constitui no simples fato de
não existir. É O Cavaleiro Inexistente (Ítalo Calvino, 2000), guerreiro de armadura
alva, límpida, reluzente, com habilidades de esgrimir a espada com perfeição,
conhecimento e raciocínio brilhantes para as táticas de batalha. Suas ações
impecáveis são motivos de constrangimento para os outros cavaleiros que nutrem
por ele antipatia, ódio, desprezo e inveja. O Cavaleiro de Selimpia Citeriore nega
seus antepassados, retratados em seus companheiros. Desmascara as ações de
bravura desmedidas e honras inquestionáveis que são consideradas fruto somente
dos cavaleiros enquanto homens superiores. Reflete-se em Agilulfo Emo
Bertrandino o homem como ser passível de falhas e, portanto, imperfeito. Em
companhia do cavaleiro da triste figura anda Gurdulu, seu escudeiro trapalhão e
esquizofrênico, possuidor de um corpo que é desprovido de razão e de
inteligibilidade, em contrapartida ao amo que possui e faz uso, em cada
movimento, de magnífica racionalidade, enquanto dentro da armadura não existe
corpo algum. Agilulfo reflete os homens desnorteados, inseguros, incrédulos e
descentes com sua existência. Seu paradoxo existencial coloca em xeque a perfeição das ideologias. Sua busca pela existência e seus feitos dialogam com a realidade vivida pelo homem no mundo exterior ao cavaleiro, tornando-o atual a cada leitura.
CONCLUSÕES:
Os diferentes modelos de cavaleiros analisados demonstram metamorfoses sofridas ao longo do tempo. As funções da cavalaria se adequam a novas realidades. Galaaz, Dom Quixote e Agilulfo dialogam com o mundo exterior e exercem funções distintas em relação a ele, pois “o discurso desses narradores é sempre o discurso de outrem numa linguagem de outrem” (BAKHTIN, 1998). A perfeição Galaaziana traduz o mundo e o homem com destino certo, com valores morais e religiosos que o norteiam. Enquanto a recriação cavalerística Quixotiniana é paródica, já que assume esses valores para negá-los pelo riso. Os valores fundamentais do homem são negados por meio dos atos cômicos do cavaleiro que diverte, renega e denuncia, o que ratifica em Bakhtin (1998) “o riso é ambivalente: alegre e cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador [...]”. Já a paródia Agilulfista refaz a perfeição dos discursos ideológicos, porém nega suas aplicações ao homem pelo fato de não existir fisicamente. Sua existência paradoxal configura a imperfeição humana e sua busca por constituir-se como ser. Esse dialogismo torna a cavalaria mística, metamórfica e cíclica. Portanto, quando se está em ruínas e parece sucumbir, o cavaleiro pode ser sonhado de novo e de forma diferente, nova, com outros traços, outras funções e direções. Dialoga com a formação de novas realidades externas e internas do ser humano e do próprio cavaleiro, além de adequar-se a elas. A paródia é metamórfica, plurilíngüe e dialógica, o que garante um processo circular de morte, vida e ressurreição ao próprio cavaleiro e também aos gêneros literários ao longo dos tempos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o
contexto de François Rabelais. 4. ed. Trad. de Yara Frateschi. São Paulo:
Hucitec, 1999.
BAKTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética: a teoria do romance.
4. ed. São Paulo: Unesp, 1998.
CALVINO, Ítalo. O Cavaleiro Inexistente. Trad. de Nilson Moulin. São Paulo: Cia
da Letras, 2000.
CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote de La Mancha. Trad. de Almir de Andrade
e Milton Amado. Edição compacta. São Paulo: EDIOURO, 1952.
MEGALI, Heitor (org.) A Demanda do Santo Graal: manuscrito do século XIII.
São Paulo: T. A. Queiroz: Editora da Universidade de São Paulo, 1998.
MOISÉS, Massaud. A Criação Literária: Prosa I. 17. ed. São Paulo: Cultrix, 2000

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DISCURSO DE FORMATURA DO CURSO DE LETRAS DO CENTRO UNIVERSITÁRIO LUTERANO DE PALMAS – CEULP/ULBRA 2007/1

Posted by FLAVIO ALVES DA SILVA on 17:05
TURMA
PROFª. Mcs. SILVÉRIA APARECIDA BASNIAK SCHIER

ORADOR
FLÁVIO ALVES DA SILVA


Ilmo. Diretor-Geral, Prof. Dr. Marcos F. Ziemer, Ilmo. Coord. do Curso de Letras, Prof. Msc. Domenico Sturiale; Ilmo. Paraninfo, Ivan Cupertino Dutra; Ilmos. Professores, Queridos Pais, Srs. e Srªs. aqui presentes, boa noite.
Hoje é um dia de emoções a flor da pele. O simbólico inunda nossas vidas “reais” ao respirarmos o ar denso de cultura, de saberes, de sonhos. É um ar carregado de ótimas sensações e que nos eleva em corpo e espírito. Tudo isso emana em proporções inimagináveis desse grande acontecimento que é esta FORMATURA. Nós estamos emocionados, felizes. Essa realização também nos fez, entre tantas coisas, tomar coragem de reconhecer e assumir falhas. Às vezes nos fechamos em nossas lutas particulares e acabamos não dando recíproca atenção àqueles que nos destina salutar importância. Por isso reconhecemos aqui nossas falhas, assumimos e, principalmente, pedimos a todos que possamos ter magoado ao longo dessa caminhada que perdoem nossos erros.
Mas hoje não é dia de lamentações. È dia de agradecimentos. Primeiro a Ele, o maior dos Mestres, nosso Grandioso Deus, pela vida e por sua constante ajuda em cada instante. Javé, sabe de cada esforço destes aqui presentes nessa batalha da faculdade e, hoje, nos brinda com a vitória! E depois não há segundos ou terceiros. Temos companheiros constantes. Seres especiais que contribuíram imensamente conosco. Pais e Mães! Tentar encontrar as palavras necessárias para expressar todo o sentimento de gratidão e admiração por tudo o que vocês já fizeram por nós é humanamente impossível. Contudo sabemos que vocês nos entendem como ninguém e com um simples obrigado, um "valeu" e um olhar de gratidão já poderíamos dizer-lhes muito obrigado pela força que nos deram. Obrigado pelo leite quente nas noites em que passamos estudando, pela carona pra não chegar atrasado na aula. Ah! E obrigado também pelo dinheiro da comida e do transporte! Pais, muitos de vocês hoje vêm um sonho concretizado, vocês também estão sentados naquelas cadeiras. Vocês estão ali, refletidos nos sonhos de cada um de nós, não teríamos como lhes recompensar por isto. Nos faltam palavras nesse momento. Então simplificaremos. Pai e Mãe, muito obrigado, valeu, nós amamos vocês.
Nossos mestres também sofreram por nossa causa, mas também nos fizeram sofrer tanto. Ainda bem. Aprendemos para a vida. Obrigado a vocês que foram mais que professores. Foram Mestres. Assumiram seus papéis de construtores do conhecimento e colaboraram conosco para além de nossa vida acadêmica.
Amigos, companheiros, namorados, esposos... Quantas vezes nos procuraram para sair, para conversar ou para namorar e estávamos perdidos entre uma pilha de livros e papéis. Quantas vezes trocados por Bakhtin, Moisés, Clarice, Machado, Marchusch, entre outros... Agradecemos à compreensão, o carinho e o incentivo que nos deram. Obrigado! Sabemos que muitos dos aqui presentes sentem-se acolhidos por estas palavras aqui ditas, pois vocês também são responsáveis por esta loucura. Recebam também os nossos sinceros agradecimentos.
Formandos, segundo São Tomaz de Aquino, o tempo não corre debalde, nem passa inutilmente sobre nossos sentidos; antes, causa nos nossos espíritos efeitos maravilhosos. Estamos rumando para o além-superior, pós-graduações, mestrados, doutorados, novos cursos. Mas o primeiro é sempre o mais marcante, nosso primeiro passo, o quebrar das correntes das limitações e receios juvenis. Já dizia o poeta que “navegar é preciso, viver não é preciso”. Nós, educadores, sabemos que ensinar é preciso e ensinar para a vida. Cabe a nós, futuros mestres como os nossos, ocuparmos nossos papéis na construção de uma educação cada vez melhor. Deixar nossas marcas como educadores e fazermos à diferença na vida de nossos alunos. Nascemos para aprender e morreremos aprendendo, sempre compartilhando o que nos foi passado àqueles que cruzarem nossos caminhos. Que Deus nos ilumine para que possamos ser, no mínimo, corretos e dignos para seguirmos com caráter e não desonrarmos nosso juramento. O grande filosofo Sêneca nos ensinou que “quando o homem não sabe para que porto está rumando, não importa para que lado sopra o vento, pois nenhum deles lhe será favorável.” (Sêneca). Nós sabemos a que portos queremos chegar. Nós faremos a hora e não esperaremos acontecer. Por isso os ventos nos serão favoráveis. A partir de amanhã nos lançaremos às novas batalhas e, certamente, a novas vitórias. Porquanto, hoje é um dia de emoções fortíssimas. Hoje é dia de comemorar.
Obrigado.

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JAGUNÇO VERSUS VAQUEIRO EM CHÃO DAS CARABINAS: A CONSTRUÇÃO DE PERSONAGENS POR MEIO DOS VALORES CULTURAIS

Posted by FLAVIO ALVES DA SILVA on 16:58
F. A. SILVA¹, M. F. R. MEDINA²

¹ Acadêmico do Curso de Letras. Voluntário no PROICT do CEULP/ULBRA. E-mail: flavioalves77@yahoo.com.br
² Doutora em Filologia Hispânica e professora do Curso de Letras do CEULP/ULBRA.

VII Jornada de Iniciação Científica CEULP/ULBRA
(Trabalho premiado com o 1º Lugar do Prêmio Jovem Cientista 2007 do Centro Universitário Luterano de Palmas - CEULP/ULBRA)

RESUMO:
A construção da obra de arte é gerada sob a lente da cultura e pelas mãos de um artista que trabalha sob influência dos valores estabelecidos pela cultura em que vive e/ou a que pertence. Este trabalho apresenta uma análise da composição valorativa de dois tipos de personagens, o vaqueiro e o jagunço, constituídos conforme os padrões culturais de uma dada sociedade. Tem-se como corpus de trabalho a obra Chão das Carabinas (2002). O conceito de cultura de Laraia (2003) e de Benedict (1972); e o conceito da composição dos valores, de Nietzche (2005), o fundamentam teoricamente. A contraposição de valores do jagunço e vaqueiro evidencia a construção do ser decorrente do poder formador/transformador da cultura.

PALAVRAS-CHAVE:
Constituição de Personagens, Vaqueiros e Jagunços, Valores Culturais.

INTRODUÇÃO:
No romance Chão das Carabinas ocorre, de forma implícita, subliminar, um
conflito de valores entre as personagens. A contraposição acontece entre dois stratus de uma sociedade medieval, o vaqueiro e jagunço, no sertão do norte goiano, hoje Tocantins. O confronto se realiza devido a essas personagens serem constituídas a partir de valores axiológicos a obra, exteriores ao contexto literário do romance. Elas são geradas por decorrência dos valores culturais de determinada sociedade, como por exemplo, status social e padrões religiosos. Com isso, a visão cultural é um fator determinante nas composições da obra de arte e de seus componentes, como as
personagens, pois segundo BAKHTIN (1997, p. 214) “o contexto de valores em que se realiza e é pensada a obra literária não se reduz apenas ao contexto literário”. No romance de Moura Lima a inserção de valores conflitantes dessas personagens se dá por meio da construção das suas ações e dos seus comportamentos, o que foi constatado a partir dos conceitos antropológicos de cultura como uma força que constitui e transforma valores atribuídos a uma dada conduta de ser.

MATERIAIS E MÉTODOS:
O objetivo deste trabalho é analisar a composição de conceitos valorativos de personagens romanescas. Construção realizada por meio da atribuição, a eles, de
conceitos de valores culturais de uma dada sociedade. Neste trabalho analisa-se a composição das personagens que, para fins metodológicos foram divididas em dois tipos: vaqueiros e jagunços. O método utilizado, para tal inquirição, foi a análise comparativa entre as classes supracitadas. A investigação foi desenvolvida em duas etapas seqüenciais. Na primeira, foi realizado um levantamento de dados e elaborada um paralelo entre os valores atribuídos às personagens. Já na segunda, é estabelecida uma discussão referente a legitimidade de uma valorização de um dos tipos de personagens em detrimento do outro.Tem-se como corpus de trabalho a obra romanesca de Moura Lima (2002). Teve como fundamentação teórica, a ótica cultural antropológica de Laraia (2003) e de Ruth Benedict (1972); e das relações e relatividade da composição a priori dos valores culturais de Niestzche (2005) que apresentam a alternância de conceitos culturais entre diferentes culturas e a
influência na composição do ser, e,conseqüentemente, das personagens.

RESULTADOS E DISCUSSÃO:
A construção das personagens se evidencia no confronto de valores que aparece na obra entre vaqueiro e jagunço. O autor trabalha com uma linguagem regionalista, descritiva dos personagens e do ambiente no qual ocorre a ação. Isso promove uma caracterização e uma valorização da fauna e da flora típicas da região, como também dos personagens, ao evidenciar peculiaridades de suas vidas e seus modos de conduta. Na narrativa de Chão das Carabinas são inseridas no desenvolver da trama partes da vida difícil de vaqueiros e jagunços do sertão tocantinense, possibilitando com isso efetuar-se a contraposição entre os parâmetros de vida dessas personagens. O Vaqueiro apresenta-se como um indivíduo composto por valores morais, éticos e religiosos. Configura-se por uma personalidade forte que em seu direito e em defesa da honra vai até às últimas conseqüências, característica marcante que é expressa até mesmo no nome. É um ser rude, embrutecido pela realidade em que vive pelo fato de enfrentar as asperezas do sertão e de pegar boi bravo a unha. É homem de coragem e valentia, é um ser honrado, de palavra e amante da justiça. Sua agilidade, suas habilidades e suas armas são usadas apenas para sua sobrevivência no sertão inóspito. Em contraposição, encontra-se o Jagunço, um ser valente, idônito e feroz, perverso e traiçoeiro que atira pelas costas e mata inocentes. É considerado um homem desprovido de honra e de senso de justiça. Sua crueldade e deboche não são gerados pelo mundo em que ele se encontra, mas pelo saldo que lhe for pago. Mantém-se sob o mando dos coronéis, em nome de uma obediência cega que o priva de vontade própria. Vive sem lealdade, pois trabalha para quem lhe pagar mais. Não respeita a justiça ou a lei estatal e suas armas estão sempre prontas para matar e saquear. O vaqueiro Noratão, cujo nome de pronúncia forte nos remete a um ser robusto e altivo contrapõe-se ao jagunço que é dotado de uma personalidade distorcida e mascarada que oculta os nomes ao revelar apenas codinomes como Zeca-Tatu e Marimbondo. O romance Chão das Carabinas (2002) faz uma exaltação aos valores do vaqueiro em detrimento à vida de jagunço, pois o primeiro é dotado de lucidez, vê a realidade em que vive e as injustiças praticadas sem tomar parte nelas. É um ser livre e vitorioso na vida sertaneja ao ser recompensado com prosperidade, fartura e felicidade, consideradas uma bênção por seus princípios e sua conduta. Enquanto o segundo permanece preso a seus instintos animalescos, sem reconhecimento ou bênção material ou espiritual, sobrevivendo das sobras de seus mandantes e tem como única recompensa a morte. No entanto, dois fatores são determinantes na vida dessas personagens: o ambiente, o sertão goiano – hoje tocantinense – áspero, cruel e selvagem; e a sociedade desse contexto, portadora de uma cultura do coronelismo, da opressão, do descaso governamental e da lei do mais forte. Esse modo de vida ainda medieval no qual vivem as personagens da obra, as impelem a desenvolver seus instintos das mais variadas maneiras. Contudo, o jagunço não difere, essencialmente, do vaqueiro nesta questão, pois ambos possuem seus respectivos códigos de honra. Eles convergem na severidade das ações, na obstinação de levar suas decisões até as últimas conseqüências, mesmo que precisem matar para alcançar seus objetivos. Essa determinação não é proveniente do prazer, pois O princípio da conservação do indivíduo (ou ‘temor da morte’) não deve ser derivado das sensações de dor e de prazer, mas de algo diretivo, de uma avaliação que é a base dos sentimentos de prazer e desprazer. Melhor ainda, pode dizer-se isto da conservação da espécie: ‘mas esta não é mais que uma conseqüência da lei da conservação do indivíduo’, não é uma lei originária (NIETZCHE apud Santos, 2005a, p. 37). Sendo assim, ela é oriunda da necessidade prioritária do ser: a sobrevivência. Na obra algumas ações evidenciam isso, a exemplo temos a recusa do vaqueiro Noratão em participar do massacre e sua posterior saída da vila; e o ataque às pessoas seguido do saqueamento das casas pelos jagunços. No entanto, “nem sempre as relações de causa e efeito são percebidas da mesma maneira por homens de culturas diferentes” (LARAIA, 2003, p. 89).

CONCLUSÕES:
O confronto de valores evidenciados na narrativa de Moura Lima em Chão das Carabinas demonstra visão da formação do ser por meio de conceitos culturais. A elevação do vaqueiro e a inferiorização do jagunço devido a suas ações e seus comportamento parte de uma dada ótica numa sociedade interiorana brasileira. A formação cultural de quem constrói uma personagem é que determina seus valores, e o meio pelo qual se determina isso é, via de regra, a cultura, pois “a cultura é uma lente através da qual o homem vê o mundo” (BENEDCT apud Laraia, 2003, p. 67). A diferenciação entre jagunço e vaqueiro estabelecida na obra, e que pode ser constatada pelo confronto de valores culturais dentro do cenário onde se realiza a ação romanesca, é de ordem “natural” nas mais variadas culturas. Isto é devido as relações de graus de valor existentes numa mesma sociedade. Hierarquia evidenciada no fato de que “o costume de discriminar os que são diferentes, porque pertencem a outro grupo, pode ser encontrado dentro de uma mesma sociedade” (LARAIA, 2003, p. 74), o que ocorre na obra investigada. A construção das personagens analisadas é feita pelo autor através da lente cultural com que ele vê o mundo em que vive e/ou recria. Sendo por isso orientado por seus conceitos culturais e por sua escala própria de valores, que na verdade nada mais é do que um reflexo dos padrões ideológicos da sociedade na qual vive e/ou a que pertence. Portanto, a exaltação ao vaqueiro e a inferiorização do jagunço encontrada na obra romanesca de Moura Lima (2002) trata-se de uma visão cultural fundamentada em padrões valorativos. Contudo, esses valores limitam-se à cultura e não ao prazer de sujeitar o ser no que tange a seu instinto, a priori, de sobrevivência, pois “ao mais forte de nossos instintos, ao tirano interior, sujeitam-se não só a nossa razão, como também a nossa consciência” (NIETZCHE, 2005b, af. 297). Sendo com isso ilegítima, em essência, a exaltação de um tipo e a inferiorização de outro, pois esse fato evidenciado em Chão das Carabinas é possível apenas sob o reflexo da manipulação de um sujeito criador, que por sua vez é asujeitado e também reflete em sua (re)criação a cultura que o forma e/ou compõe seu universo (re)criado.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Trad. Maria Ermantina Galvão. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
BENEDICT, Ruth. O crisântemo e a espada. São Paulo: Perspectiva, 1972.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 16 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2003.
LIMA, Moura. Chão das Carabinas. Gurupi. Gráfica e Editora Cometa, 2002.
NIETZCHE, Friedrich Wilhelm. Vontade de Potência I. São Paulo: Ed. Escala, 2005.
______. Vontade de Potência II. São Paulo: Ed. Escala, 2005.
SANTOS, Mario D. Ferreira. “Prólogo”. In. NIETZCHE, F. W Vontade de Potência I. São Paulo: Ed. Escala, 2005.

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INTERTEXTUALIDADE E POLIFONIA EM "TODO MUNDO EM PÂNICO 3"

F. A. SILVA¹, S. A. B. SCHIER²

¹ Acadêmico do Curso de Letras do CEULP/ULBRA. E-mail: flavioalves77@yahoo.com.br
² Mestranda em Análise do Discurso e professora do CEULP/ULBRA

V Congresso Científico CEULP/ULBRA

RESUMO:
Todo discurso é, essencialmente, constituído de outros discursos, com isso cada texto é uma manifestação de já ditos que podem ser apresentados de forma monofônica ou polifônica conforme suas funções ideológicas ao longo do tempo. O presente trabalho apresenta a análise de um filme que, tendo a paródia como elemento recriador, apresenta-se, a priori, como fonte de manifestação intertextual e polifônica. Tem-se como corpus deste, o filme Todo Mundo em Pânico 3. O conceito de Intertextualidade de Ducrot e de Polifonia de Bakhtin, fundamenta-o teoricamente.
Esta análise evidencia a intertextualidade e a polifonia na linguagem e em sua formação de enunciados, enunciadores e enunciações no discurso.

PALAVRAS-CHAVE:
Filme, Intertextualidade, Polifonia.

INTRODUÇÃO:
O texto não se restringe à palavra escrita podendo ser entendido como toda e
qualquer manifestação de linguagem sendo que todo e qualquer conhecimento é perpassado pela linguagem e só por meio desta pode ser organizado e aferido. Assim na linguagem cinematográfica, as cenas de um filme podem ser lidas como um texto e analisadas como tal. A análise de um filme pode evidenciar a intertextualidade e a polifonia na linguagem e em sua formação de enunciados, enunciadores e enunciações no discurso. A intertextualidade vista como uma relação implícita e/ou explícita com outros textos constituindo-se em um objeto heterogêneo, pois “todo texto é um
intertexto; outros textos estão presentes nele, em níveis variáveis, sob formas mais ou menos reconhecíveis” (BARTHES 1974 apud KOCH, 1991). Com isso, segundo Koch (1991), ela pode se apresentar em sentido amplo e em sentido restrito e, nesta última, sob vários tipos (intertextualidade de forma, de forma e conteúdo, explícita e implícita, das semelhanças e das diferenças, com intertexto alheio, com intertexto próprio ou com intertexto de um enunciador genérico). A polifonia é a presença de diversas vozes no processo de interação verbal da linguagem, é, segundo Ducrot (apud Koch, 1991), as diversas perspectivas, pontos de vista ou posições que se fazem presentes no enunciados. Ducrot (apud Koch, 1991) considera dois tipos de polifonia. Um quando no mesmo enunciado coexistem mais de um locutor, e outro, quando coexiste mais de um enunciador no mesmo enunciado.

MATERIAIS E MÉTODOS:
O objetivo deste trabalho é analisar a como a intertextualidade e a polifonia se fazem presentes no filme “Todo mundo em pânico 3”. O método utilizado, para tanto,
foi a análise do filme juntamente com uma pesquisa bibliográfica inerentes à temática abordada. Teve como fundamentação a teoria da intertextualidade de Ducrot e da polifonia de Bakhtin (1992), em que a comunicação se efetiva pelo uso da linguagem de forma dialógica e, portanto, intertextual e polifônica.

RESULTADOS E DISCUSSÕES:
O filme Todo Mundo em Pânico 3 satiriza de forma
irreverente e hilariante os recentes sucessos de bilheteria desde “O chamado”, “Sinais”, "Matriz Reload”, “Os outros” até “8 mile – Rua das Ilusões”, além de marcos da cultura pop como o programa de TV American Idol. Tudo começa quando a apresentadora de telejornal Cindy Campbell descobre uma série de terríveis acontecimentos que ameaçam o planeta, envolvendo invasões extraterrestres, vídeos assassinos, assustadores círculos em plantações, profecias sobre o escolhido, crianças com olhares sinistros, rappers brancos ambiciosos e até mesmo uma discussão com Michael Jackson. Ao analise-se o filme Todo Mundo em Pânico 3, verificam-se as vozes exteriores, assim como outros textos que se manifestam em cada recriação de uma cena. O dialogismo é constitutivo da linguagem e perpassa por toda forma de constituição da linguagem, pois segundo Bakhtin (1992): O diálogo, no sentido estrito do termo, não constitui, é claro, senão uma das formas, é verdade que das mais importantes, da interação verbal. Mas pode-se compreender a palavra ‘diálogo’ num sentido mais amplo, isto é, não apenas como a comunicação em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação verbal, de qualquer tipo que seja (BAKHTIN, 1992). Com isso o filme “Todo Mundo em Pânico 3” (doravante denominado TMP3) apresenta-se como um discurso irônico e paródico, dialógico, intertextual e polifônico. O filme TMP3 apresenta uma intertextualidade, conforme Koch (1991) em sentido estrito, de conteúdo, pois o filme é constituído por cenas de outros filmes, fazendo uso de conceitos e termos comuns a uma área específica, o cinema. TMP3 traz em si a forma intertextual de forma e conteúdo ao parodiar outros filmes objetivando-se provocar o riso. Essa intertextualidade está presente de maneira explícita e implícita. A primeira está nas cenas do filme, que nos remetem a outros filmes, por serem todas, estruturalmente, cenas de outros, sendo dessa forma “o discurso de outrem na linguagem de outrem” (BAKHTIN, 1998). Já a segunda, apresenta-se nos motivos, objetivos que constituem o filme TMP3 como uma parodia cinematográfica. Neste filme são plagiados outros filmes e alguns gêneros pop’s, porém de maneira distorcida, pois “a paródia possui um caráter dialógico, dissonante e polissêmico” (FÁVERO, 1999). Ao parodiar outros filmes, caracteriza-se no filme a intertextualidade das diferenças por meio da qual “o texto incorpora o intertexto para ridicularizá-lo ou, pelo menos, refutá-lo, ou colocá-lo em questão” (Koch, 1991). A paródia cinematográfica TMP3 é a priori polifônica, pois segundo Brant (apud Rechdan, 2000) o texto irônico é essencialmente polifônico. Em TMP3 é subjaz, metalingüisticamente, o enunciado segundo Ducrot (apud Koch, 1991), no qual este só existe numa representação (no sentido teatral) da enunciação. O filme traz em si uma polifonia mascarada pela ironia, lugar em que encenam-se diversos enunciadores, vozes polissêmicas e dissonantes. O dialógismo existente em TMP3 apresenta este como uma teia, um “texto tecido dialogicamente por fios dialógicos de vozes que polemizam entre si, se completam ou respondem umas às outras” (BARROS, 1999). É essa relação polifônica tecida com outros filmes que possibilitam atribuir sentido ao filme TMP3. Nesta paródia cinematográfica apresentam diferentes vozes sociais que se defrontam, se entrechocam, manifestando diferentes pontos de vista sociais sobre um dado objeto, assume-se esses discursos e os discursos de outros filmes, mas eliminam-se suas seivas semânticas, transformam-se suas enunciações para distorcer seus enunciados dando a esses um caráter plurilíngüe, uma existência cíclica, o que se ratifica em SILVA (2006) “A paródia é metamórfica, plurilíngüe e dialógica, o que garante um processo de morte, vida e ressurreição [...]”.

CONCLUSÕES:
O filme Todo Mundo em Pânico 3 trata-se de uma paródia cinematográfica, em primeiro plano objetiva-se o humor, mas segundo Bakhtin (apud Silva, 2006) “o riso é ambivalente: alegre e cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador [...]”. Com isso o riso almejado em primeiro plano mascara os demais semas encontrados no filme, mas não os elimina. O filme analisado demonstra a presença e a importância da intertextualidade e da polifonia na formação do texto. Suas funções semânticas possibilitam a compreensão cognitiva do texto, assim como seu uso ideológico. Novos sentidos surgem do filme/texto em conformidade com a posição em que se coloca cada enunciador (locutor e alocutário) frente ao enunciado, ou a condição em que se manifesta a enunciação. A intertextualidade apresentada em TMP3 dá-se entre diversos textos/filmes nele parodiados e é o que constitue seu roteiro, sendo este possível somente nessa teia intertextual estabelecida. A polifonia revela-se na paródia, que sendo o elemento (re)criador do filme o constitui em uma estrutura polissêmica, multideológica e plurilíngüe, o que ressalta as diversa vozes conflitantes existentes no filme.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BAKHTIN, Mikhail. Os Gêneros do Discurso. In. Estética da Criação Verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997, cap. p. 279-326.
___________. Marxismo e Filosofia da Linguagem. 6 ed. São Paulo: Hucitec, 1992.
___________. Questões de Literatura e de Estética: a teoria do romance. 4. ed. São Paulo: Unesp, 1998.
BARROS, Diana Luz Pessoa de. Dialogismo, Polifonia e Enunciação. In. Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade: em torno de Bakhtin. FIORIN, José Luiz; BARROS, Diana Luz Pessoa de. [orgs] 2 ed. São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1999. (Ensaios de Cultura, 7).
BLIKSTEIN, Izidoro. Intertextualidade e Polifonia: o discurso do Plano “Brasil Novo”. In. Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade: em torno de Bakhtin. FIORIN, José Luiz; BARROS, Diana Luz Pessoa de. [orgs] 2 ed. São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1999. (Ensaios de Cultura, 7).
FAVÉRO, Leonor Lopes. Paródia e Dialogismo. In. Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade: em torno de Bakhtin. FIORIN, José Luiz; BARROS, Diana Luz Pessoa de. [orgs] 2 ed. São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1999. (Ensaios de Cultura, 7).
FIORIN, José Luiz. Polifonia textual e discursiva. In. Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade: em torno de Bakhtin. FIORIN, José Luiz; BARROS, Diana Luz Pessoa de. [orgs] 2 ed. São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1999. (Ensaios de Cultura, 7).
KOCH, Ingidore G. Villaça. Intertextualidade e Polifonia: um só fenômeno?. D.E.L.T.A., VOL. 7, N° 2, 1991.
RECHDAN, Maria Letícia de Almeida. Dialogismo ou Polifonia?. Disponível em
http://www.unitau.br/prppg/publica/humanas/download/dialogismo-N1-2003.pdf. Acesso em: 26 de junho de 2006.
SILVA, Flávio Alves da. A metamorfose parodica dos cavaleiros: um breve estudo
comparativo. In. Jornada de Iniciação Cientifica, VI, 2006. Palmas. Ciência e Desenvolvimento Humano. Palmas. Ed. ULBRA. 2006, p. 424.

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MISSA DO GALO – EU OUVI

Posted by FLAVIO ALVES DA SILVA on 20:18
MISSA DO GALO – EU OUVIR

Por Flávio Alves da Silva

Eu ouvir certa vez contarem uma história acerca de uma conhecida família lá das bandas do Rio de Janeiro. É, nos tempos que lá era corte. Ouvir essa história várias vezes, mas duas delas é que se encontram mais frescas em minha memória. A primeira era narrada por um homem. Ele falava com as lembranças. Com certeza ele é que vivera tal história. Já a segunda eu não sei direito que contava, mas sei que ele não estava dentro da história. Conhecia bem o acontecido e falava sobre ele por meio de D. Inácia. Deve ter sabido por ela.
Ambos falavam de D.Conceição e do Sr. Nogueira. Há! Certeza que a primeira vez que ouvir era este senhor que falava. Devia de ter saudades, ele tinha em mãos um Recordações do Escrivão Isaías Caminha, e talvez desejasse reviver aquele momento. Tratava da estádia dele na casa dela. Da espera de Menezes para ir assistir a missa do galo na corte e, principalmente, particularmente, da conversa entre eles durante essa espera. Todo o restante era adereço. O que realmente importava era os dois sozinhos naquela sala. Um todo empiriquitado, de terno, sapatos luzidos. Outra só de roupão e chinela. Conversando baixinho, ou melhor, cochichavam. Como falava o narrado desconhecido, D. Inácia tomou conhecimento do fato no mesmo momento. Ela viu tudo. Pelo buraco da fechadura. Como ela não iria saber. Logo ela que tinha o sono leve uma pluma. E tinha que zelar pela sua filha, já que Menezes não fazia assim como seu falecido tinha feito com ela. Essa comparação entre o finado, Seu Veiga, e o Menezes é muito bem apresentada por D. Inácia. O morto, como todo morto, é um ser perfeito, havia sido ótimo esposo e pai de família. E ela ao contrário de Conceição vivera em outros lugares. Uma vida social ativa. Compras, idas ao teatro, ao senado, enfim, não vivera presa em casa como sua pobre filha. E tudo por culpa do Menezes. Esse não passava de um mulherengo.
Quanta inocência eu percebi no primeiro relato. Não do homem que relatava, mas daquele homem que viverá a história. O que contava não faria agora o que fez, ou melhor, provavelmente faria o que não fez. Sugestões para uma aventura haviam acontecido e uma completa contemplação tivera sobressaído a tudo. Havia muito medo de acontecer alguma coisa no segundo relato. Pensamentos e calafrios percorreram o corpo da mãe à estreita. Os dois conversando, às vezes bem próximos, outras, pouquíssimas, longe. Sempre com cuidado para falarem baixo.
A traição pairava no ar, suspensa por um fio tênue. Uma linha fronteiriça entre a admiração idolátrica e o desejo dionisíaco. Ingenuidade e lascívia. Jovem e Mulher. Esse pecado da Igreja e da sociedade é que deve ter perpetuado essa história. Não o pecado em si, mas as aparências exigidas pela sociedade. Macho e fêmea sozinhos à noite era inadmissível. Já se pensava em pecaminosidade. Sendo ela casada era pior, adultério. Ela devia ser como o pai fora. Um santo. E a amiga de Conceição? É. A gentil amiga que visitara a Valois de Seu Veiga. Menezes não estava em casa, tinha ida ao teatro. Ia ser o outra na vida de outra de sua vida. O teatro é o palco por excelência das representações humanas, onde representamos as simples coisas não permitidas, mas realizadas cotidianamente. Os dois controlaram-se. Assim dizia a mãe, assim pesava ele. Contudo aquela noite fora mágica, ele sonhara e ela fantasiara. Tudo podia ter acontecido. Ninguém via tudo o que aconteceu. A vigilante devaneou em suas lembranças e na visão do homem de preto. Os amantes não confessariam, jamais. Não há provas, não existe crime. Qual crime? Conversar? Sonhar? Desejar? Realizar?!
Conceição era santa. A esposa perfeita. Modelo desejado por todos. Era a sociedade personificada. Sabia de tudo do Menezes, mas não fazia alarde. Era só aparências. Pura mediocridade. Ela não fora Capitu, jóia rara, mulher mineral, conforme dizia Seu Veiga. Será que não fora mesmo Capitu? Parecia diferente da mãe. Parecia. Ela era uma rocha que quando se arma a tormenta recebia os impactos das águas e sempre o tempo soprando e soprando com feras roedoras a carcomer-la. Eles não ficaram juntos. Ela resistia a tudo, até ao Sr. Nogueira. ?!?!.
Eu sempre lembrarei dessa história. Como ela sutilmente esgrima a verdade ante a verdade pregada pela sociedade de si tão cega. Com certeza essa narrativa deve ter acontecido por outros pontos de vista. Quem a viveu pode contá-la. Quem soube dela não guarda segredo. Tive o prazer de ouvi-la de mais de um ângulo. De refletir sobre ela. Terei o prazer em levar comigo essa ambigüidade presente nas palavras desse causo. Quem contou nos disse uma mensagem sem dizê-la. Seu tempo não lhes permitiu contar tudo. Ou talvez não o quisessem fazer.

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A PRÁTICA DA LEITURA NA ESCOLA

Posted by FLAVIO ALVES DA SILVA on 17:21 in , , , ,
F. A. SILVA¹, M. E. L. MILAGRE²

¹ Acadêmico do Curso de Letras do CEULP/ULBRA. E-mail: flavioalves77@yahoo.com.br
² Professora do CEULP/ULBRA

V Congresso Científico CEULP/ULBRA

RESUMO:
O ato de ler assume diversas práticas dentro do universo leitura. Cada leitor em cada leitura busca diferentes objetivos movido por forças motrizes distintas. O presente trabalho apresenta uma análise de diferentes textos referentes à prática de leitura na escola, evidenciando como é realizada essa prática e busca-se verificar se a mesma é uma prática intertextual e dialógica. Com suporte teórico no dialoguismo e na intertextualidade de Bakhtin.

PALAVRAS-CHAVES:
Leitura, Práticas, Conhecimento.

INTRODUÇÃO:
Todo e qualquer conhecimento é perpassado pela linguagem e só através desta pode ser organizado e aferido. Uma das partes constituintes da linguagem é a leitura, ato por meio do qual o indivíduo constrói seus significados por meio da interpretação dos significantes com os quais manteve contato. Segundo Kleiman (1995): "A aprendizagem da criança na escola está fundamentada na leitura[...]” com isso a pratica da leitura na escola assume um papel vital para a formação do indivíduo como um ser dialógico. O ato de ler constitui-se em uma dimensão macrocósmica, recheada de pequenas partes constitutivas das competências e habilidades individuais e coletivas do ser em uma diacronia sócio-histórico-cultural de construção do conhecimento. A leitura é um ato que coloca o leitor em contato com outras leituras e seus significantes e significados, promovendo assim a intertextualidade e o dialoguismo.

MATERIAIS E MÉTODOS:
O objetivo deste trabalho é analisar a prática da leitura na escola em diferentes instâncias. O método utilizado, para tanto, foi a pesquisa bibliográfica em textos veiculados em diversos meios de comunicação, livros, revistas, internet. Teve como fundamentação a teoria da intertextualidade e do dialoguismo, de Bakhtin (1998), como elementos constituintes da formação educacional construtivista.

RESULTADOS E DISCUSSÕES:
O ato de ler constitui-se em uma dimensão macrocósmica, recheada de pequenas partes constitutivas das competências e habilidades individuais e coletivas do ser em uma diacronia sócio-histórico-cultural de construção do conhecimento. Muito embora esse ato seja abordado e realizado, em sua quase totalidade, de forma segmentada, com foco direcionado ao fator de decodificação dos signos lingüísticos. Esse enfoque decodificatório é bastante utilizado na escola, onde o que mais importa é que o aluno consiga identificar as letras e suas associações enquanto palavras. Trata-se de uma prática “direcionada” para a parte gramatical da língua onde busca-se (quando se busca algo) simplesmente reconhecer as normas de uso da língua padrão. Esta postura da escola gera, dentre outras coisas, o desgosto, o sentido de obrigatoriedade e a aversão pela leitura. Outros dois modos de utilização/tratamento do ato da leitura nos conduzem a utilização dessa como uma exigência do e para o mercado de trabalho e/ou como um ato de lazer, restringindo essa leitura a determinadas e específicas áreas do conhecimento. Em outras palavras, só lemos o que queremos e/ou o que nos interessa objetivamente, mantendo com isso, mesmo que de forma mais implícita, a limitação da leitura a microcosmos. Na primeira deve-se “levar em conta a autonomia relativa que a escola deve a sua função própria sem deixar escapar as funções de classe que ela preenche necessariamente numa sociedade dividida em classes” (Nogueira, 2006) e assim a prática de leitura assume uma função tecnicista, operacional e obrigatória. Na segunda, a leitura é um refúgio, um escape para a tensão e o estresse, sendo considerado apenas como passa tempo, sendo assim desprovida de sentido cognitivo para a formação significativa do indivíduo. De modo geral, o ato de ler fica ancorado a uma única forma de utilização e uma finalidade específica. A busca e seqüencial efetivação de condições facilitadoras para a prática da leitura deve ser constante e contínua, portanto, as instituições de ensino e quaisquer outras que procure ou queira disseminar a prática da leitura deve se atentar para proporcionar essas situações que contribuam para a efetivação do processo construtivo do conhecimento. Essas condições para a prática da leitura são explícitas e implícitas na formação do saber. A liberdade para escolher suas leituras e a não obrigatoriedade de resolução de questionários após a leitura de cada e de todos os textos são exemplos dessas condições, assim como o incentivo do espelho, no qual o mediador reflete em si mesmo as vantagens e benefícios do domínio da leitura, refletindo também o próprio ato de ler. “A aprendizagem da leitura permite ao leitor conhecer, refletir e atuar sobre esta realidade, fazendo sentido então ler para escrever, ler para decorar, ler para entender e escrever para não esquecer” (Cavalcante, 2006). Com isso a prática da leitura não deve ser direcionada estritamente à quantidade, mas deve haver uma eqüidade entre quantidade e qualidade, levando o indivíduo a uma aprendizagem significativa. Deve-se criar condições que facilitem uma prática de leitura diária, em suas várias instâncias. As várias possibilidades de leitura por parte dos construtores do ato de ler, assim como a intertextualidade deve ser inserida na leitura possibilitando o contato com a diversidade de textos existentes, sempre realizando uma relação dialógica com e entre os conhecimentos teóricos, práticos e os demais fatores axiológicos, dentro da qual contextualiza-se os saberes e (re)constrói-se o conhecimento.

CONCLUSÕES:
Os diferentes textos analisados demonstram que a clareza de objetivos é fundamental, uma vez que propicia o desenvolvimento e aprimoramento de estratégias metacognitivas de leitura. Goodman (1991) afirma que "para entender como a leitura funciona, é necessário entender por que os leitores lêem", porém a improficiência em leitura da população brasileira de modo geral é alarmante, pois a prática da leitura na escola é ministrada de forma monológica e imperativa. Não há diálogo, pois segundo Bakhtin: “O diálogo, no sentido estrito do termo, não constitui, é claro, senão uma das formas, é verdade que das mais importantes, da interação verbal. Mas pode-se compreender a palavra ‘diálogo’ num sentido mais amplo, isto é, não apenas como a comunicação em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação verbal, de qualquer tipo que seja”. Portanto, a leitura não pode limitar-se a uma função específica, mas deve constituir um ato de formação significativa para o indivíduo dentro do processo de construção do conhecimento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BAKTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. In: Estética da Criação Verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. cap. p. 279-326.
CAVALCANTE, Télia Batista. A Prática Pedagógica no Ensino Fundamental. Palmas-TO: CEULP/ULBRA, 2006. (Impresso).
GOODMAN, K. In: E. Ferreiro & Palacios, M. (orgs.) O processo de leitura: considerações das línguas e do desenvolvimento. Os processos de leitura e escrita novas perspectivas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.
KLEIMAN, Ângela. Oficina de leitura: teoria e prática. 8 ed. Campinas-SP: Pontes, 2001.
NOGUEIRA, Angra Mendes. A Escola e a Reprodução Social. Palmas-TO: CEULP/ULBRA, 2006.(Impresso).

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