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RESENHA DO LIVRO "EDUCAR EM TEMPOS INCERTOS" DE MARIANO F. ENQUITA

Posted by FLAVIO ALVES DA SILVA on 17:39 in , , ,
A presente obra realiza uma amostragem das mudanças ocorridas nas instituições escolares e na sociedade nos últimos tempos. Aponta suas conseqüências e considera nesse processo a tarefa e a identidade daqueles envolvidos pelo contexto educacional. O livro tem sua estrutura dividida em sete capítulos nos quais o autor, dentro de sua teoria, aborda as questões por ele consideradas necessárias de análise para a realização de sua amostragem em defesa de sua tese que, por sua vez, consiste na necessidade de refletir sobre algumas práticas consideradas certezas absolutas dentro da educação e dessa forma exergar-se a derrocada de tais conceitos e métodos de ensino-aprendizagem, pois se faz necessário associar-se a educação as necessidades mais atuais como a capacidade e o emprego desta e da escola em caminhar de forma conjunta e diametralmente paralelas com a sociedade.
No primeiro capitulo é abordada a questão das mudanças na instituição escolar. É traçado uma amostragem das mudanças suprageracional, da intergeracional e da intrageracional , além de uma discussão acerca da diversificação dos alunos e professores dentro de uma escola. Aqui é colocada a necessidade sentida pela sociedade da existência de instituições escolares a partir do momento em que a família deixa de exercer sozinha essa função. Segundo Enguita, é nesse momento que o magistério tem sua apoteose e o professor ocupou o lugar de figura central desse processo. Contudo a escola sentiu a necessidade e a obrigação de acolher em seu seio as diferentes classes e os mais distintos tipos de alunos e também de professores, com isso as mudanças que ocorriam dentro desse espaço limitado da escola a levaram para uma condição em que essa deveria realizar em si mesma adaptações e aprendizagens de forma constantes, inclusive o professor. Para essa transformação o autor não considerou apenas as mudanças tecnológicas ocorridas nas várias sociedades, mas também a relação entre essas e a educação.
O capítulo seguinte traz uma amostragem da influência exercida, de forma determinante, pelo trabalho no campo da sociedade do conhecimento. Dentro dessa unidade é demonstrado como a sociedade com a sua evolução industrial estabeleceu um tipo de ensino-aprendizagem desenvolvido com o objetivo único de alimentar a força de mão-de-obra da qual o mercado de trabalho tinha necessidade. O autor coloca aqui que o papel da escola na época (final do século XIX e início do século XX) era nada mais nada menos do que capacitar os alunos para o desenvolvimento das atividades trabalhistas. Para apresentar essa idéia é transcorrido um percurso de transformações sociais que vem desde a revolução industrial passando por transformações dentro mesmo desse processo industrial como o fordismo e taylorismo. Na abordagem da atualidade são realizados questionamentos acerca da educação no constante a que tipo de educação se faz necessária. Seu conceito de sustentabilidade e de importância da educação é firmado em cima da necessidade de qualificação entendida por ele como ampliação global dos conhecimentos, pois essa se faz obrigatória diante da competitividade que é um fato consumado no mercado de trabalho e, por sua vez traz consigo conseqüências como a flexibilidade e a adaptação para novas situações.
A terceira parte da obra traz um relato histórico acerca dos interesses e dos interessados no processo de ensino-aprendizagem. Nessa parte são tratadas as questão da formação do estado e da função da escola nessa construção. É também abordada a realização de uma educação intercultural dentro de uma sociedade multicultural e a formação humanística dentro de uma sociedade globalizada. Enguita apresenta de maneira contudente qual é o papel desenvolvido pela escola e a função da mesma e dos professores dentro desse processo de globalização, sendo eles a necessidade de trabalhar para os direitos individuais, para a solidariedade e para a formação e consolidação da democracia.
O quarto capítulo tem como foco de trabalho os encontros e desencontros da família-escola. O autor demonstra o rompimento com a tradição e a expansão da escolarização como um processo de imperialismo que torna a escola como centro do processo educacional. Esse acontecimento é propiciado devido ao fato de que a família vai aos poucos perdendo a função de custódia da criança em conformidade com a secularização da sociedade e para suprir essa função vem a escola com a tarefa de educar. Contudo o autor demonstra também que esse modelo de escola-família não perdurou por muito tempo e demonstra a derrocada dessa hierarquia.
Educação e justiça social é a questão abordada no quinto capítulo da obra, no qual o autor discorre acerca da desigualdade social e da igualdade territorial. Ressalta as políticas igualitárias e seus resultados desiguais. Nesse ponto da obra o autor discute a questão da inclusão e de suas conseqüências no sistema escolar ressaltando a difícil conciliação da igualdade com a diversidade. Para colocar em foco essa complexa realização das políticas educacionais ligadas a igualdade social são apresentadas questões particulares da Espanha, mas que podem perfeitamente serem comparadas com as existentes em nosso país.
É a escola o ponto trabalhado no sexto capítulo. Nesse debate é discutida a instituição escolar em sua organização assim como seu entorno. São trabalhadas questões como a crise da organização escolar ou a quebra do sistema racional, a organização escolar como sistema natural ou a dissolução em seus elementos, além da necessária primazia do sistema ou a abertura para o entorno. O ponto central do debate se encontra na articulação da escola com seu entorno, pois as transformações acontecidas em volta dela fizeram com que sua mudança fosse inexorável. Uma reação exigida pela necessidade de flexibilização e de abertura da escola diante das inovações, com isso a instituição agora denominada de escola-sistema não deve se alienar da sociedade, pois deve reconhecer dentro desta última a sua importância.
No último capitulo, o sétimo, são colocadas as transformações sofridas pela profissão desde sua natureza e composição social passando pela estratégia coletiva e a jurisdição da profissão até culminar nas mudanças no modelo de profissionalismo. Novamente o autor coloca dados particulares da Espanha como exemplo concreto de discussão. Dentro desse debate é tratada a mudança do perfil dos professores e o reflexo dessas transformações na escola e na sociedade. Para isso são consideradas questões como a docência, a jornada de trabalho com suas condições de desenvolvimento do mesmo, a relação professor-aluno em sua carência de estabelecimento de vínculos entre eles e da importância do professor como recurso essencial na escola, dentre outras. Neste capítulo é reforçada a necessidade de flexibilização e abertura da escola como elementos basilares à escola para a garantia e sustentabilidade de sua importância no seio da sociedade.
É lançado, no epílogo, um desafio a todos os envolvidos no processo educacional para que sigam Prometeu: que olhem para frente e que arrisquem. Segundo Enguita, mesmo que o preço a pagar seja elevado o galardão é mais gratificante desde que ajudassem a formar cidadãos plenos em cidadania e qualificação profissional.
A obra foi gerada por um catedrático da Universidade de Salamanca, um importante e reconhecido centro de discussão e de produções importantes acerca da educação. Ela aborda precisamente questões comuns as mais diversas sociedades e torna-se um instrumento importante na discussão e para o aperfeiçoamento do processo educacional e de seu sistema escolar. Dessa forma sua leitura se faz recomendável e de grande importância para todos aqueles de que em diversas formas, diretas ou indiretas, encontrem-se envolvidos e, consequentemente, preocupados com a temática trabalhada, tornando-se para eles uma fonte de estudo e reflexão em busca da construção de um melhor sistema educacional.

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CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS E DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA

Posted by FLAVIO ALVES DA SILVA on 13:32 in , ,
A arte de contar histórias é uma prática milenar que se teve seu ínicio desde os primórdios da humanidade por meio da tradição oral, sendo intensificadas na Grécia Antiga e no Império Árabe – por meio das famosas histórias presentes na obra “As mil e uma noites”, contadas por Sherazade. Essa arte amplia o universo literário, desperta o interesse pela leitura e estimula a imaginação através da construção de imagens interiores. Narrar uma historia será sempre um exercício de renovação da vida, um encontro com a possibilidade, com o imaginário e o desafio de, em todo tempo e em todas as circunstâncias de construir um final a maneira de cada leitor/ouvinte.
A contação de histórias age na formação da criança em várias áreas. Contribui no desenvolvimento intelectual, pois desperta o interesse pela leitura e estimula a imaginação por meio da construção de imagens interiores e dos universos da realidade e da ficção, dos cenários, personagens e ações que são narradas em cada história.
Outro ponto em que atua é no desenvolvimento comunicativo devido a sua provocação de oralidade que leva a criança a dialogar com seus colegas ouvintes e a (re)contar a história para seus amigos que não estavam presentes naquele momento. Com isso também é desenvolvida a interação sócio-cultural da criança ao proporcionar essa interação entre crianças e a criação de laços sociais e formação de gosto pela literatura e artes. A criança recebe influência até em seu desenvolvimento físico-motor, devido a manipulação do corpo e da voz de que faz uso ao ouvir e recontar as histórias.
As escolas devem promover a formação de seus professores das séries iniciais possibilitando o contato com conceitos e técnicas de formação para contadores de histórias para capacitá-los para a percepção e uso dos valores do texto, das múltiplas possibilidades de abordagem do texto literário, para vivenciarem o contar histórias associando à teoria e a prática a partir do acervo pessoal como a memória afetiva e as histórias da infância e assim promover a interação de suas interfaces com os demais textos, e posteriormente, divulgar a arte de contar histórias com seus diversos enfoques de leitura, (re)apresentação.e representação.
As histórias também desenvolvem uma função de construção de conhecimento social da realidade junto a formação de valores e conceitos, pois embora seja ficção, o texto literário tem o poder de revelar a realidade social e até desmascarar suas mentiras, de forma que “a ficção pode ser mais real que o que se quer real, e o real pode ser mais ficcional que o que se quer ficcional” (Roland Barthes). Em uma sociedade tecnicista como a sociedade atual, contar e ouvir histórias é uma possibilidade libertária de aprendizagem e uma atividade de suma importância na construção do conhecimento e do desenvolvimento ético e significativo da criança enquanto ser humano.

(TEXTO PUBLICADO NO PORTAL LITERAL: http://portalliteral.terra.com.br/artigos/contacao-de-historias-e-desenvolvimento-da-crianca)

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LITERATURA... PRA QUE MESMO?

Posted by FLAVIO ALVES DA SILVA on 13:27
A literatura é, sempre foi e será o grande veiculo comunicativo que possibilita uma maior propagação dos conhecimentos, das diversas maneiras de interação social e da cultura de um povo para seus contemporâneos e para a posteridade. A literatura é uma manifestação artística por excelência, pois difere das demais por sua matéria-prima que é, nada mais nada menos, a palavra, a linguagem. O uso do signo lingüístico como unidade de concepção, de construção e de expressão a torna mais abrangente do que as outras artes, possibilitando assim que ela traga em si todas elas e ao mesmo tempo se encontra presente em partículas de tamanho variáveis, mas sempre presentes em todas as outras formas de manifestações do homem. A Literatura é a arte da palavra.
A literatura em sua função cartática, por meio da qual o leitor vive a vida do personagem de maneira a sentir e sofrer suas dores assim como compartilha seus sonhos e alegrias possibilita que o leitor não precise entender de administração de empresas ou economia para saber que cronograma financeiro mal realizado de uma empresa não gera apenas a falência de uma identidade jurídica, mas proporciona a ruína de inúmeras pessoas físicas que possuem sonhos e desejos pelos quais lutam diariamente em seus campos de trabalho em uma árdua rotina de mais-valia e alienação.
Ela tem a competência de elevar nossa capacidade de questionar e interpretar a vida para a partir dos conhecimentos construídos formularmos um pensamento crítico e transformador. Essa forma de pensamento é uma riqueza inigualável, além de um poderoso instrumento de guerra contra o controle ideológico e a manipulação do homem. A literatura também pode assumir formas de crítica à realidade circundante e de denúncia social. Sendo com isso uma literatura engajada que atua na própria realidade como um fator de transformação. Seu uso passa a servir para uma causa político-ideológica.
Sua capacidade de influência e transmutação no ser humano é tão forte e ao mesmo tempo tão sutil que sua utilização a serviço de uma causa político ideológica assume uma dupla face iqualavelmente carcerária e libertadora. A primeira face vai desde sua destruição e seu apagamento como forma de domesticação do pensamento até a construção de um falso pressuposto de nada vale. É muito comum se ouvir que literatura serve apenas para os estudiosos dela mesma e para os eruditos da acadêmica e que para os ignorantes e analfabetos, a literatura não serve para nada. A história nos mostra que muitos dos grandes governantes ditadores e facistas eram também grandes conhecedores da literatura e conseqüentemente pessoas eruditas, contudo se as populações aos quais foram subjugadas fossem também conhecedoras da literatura e de seu poder transformador, no mínimo não teriam sido manipuladas e exploradas de forma tão cruel e duradoura como foram.
A segunda face tem a literatura como forma de expressão, de resistência e de luta para transformação de uma dada realidade, pois “nada nos protege melhor da estupidez do preconceito, do racismo, da xenofobia, do sectarismo religioso ou político e do nacionalismo excludente do que esta verdade que sempre surge na grande literatura: todos são essencialmente iguais. Nada nos ensina melhor do que os bons romances a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do legado humano e a estimá-las como manifestação da multifacetada criatividade humana” (Mário Vargas Llosa).
Assim a literatura age por meio de sua produção e difusão como fonte de conhecimento e sua leitura age como luz na escuridão e chaves nas algemas proporcionando a capacidade de ver a realidade sob diversos pontos de vista e propiciando a liberdade sobre as mentes, o corpo e até mesmo as almas. Além, é claro, de proporcionar o satisfatório prazer de viver e conhecer outros lugares, outros mundos sempre possíveis pela arte da palavra.

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL DO TOCANTINS - CADERNO OPINIÃO, SEÇÃO TENDÊNCIAS E IDÉIAS

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